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sábado, 27 de janeiro de 2018

GILMAR SANTIAGO, PRESIDENTE DO PT DE SALVADOR, FALA SOBRE JULGAMENTO DE LULA


O Presidente do Diretório Municipal do PT de Salvador, Gilmar Santiago, ex-vereador e atual funcionário da EMBASA,  concedeu entrevista ao SINTERP/BA, na qual falou sobre o julgamento de Lula, o que este faria se fosse presidente e a entrega do país no governo Temer.

SINTERP/BA -  No caso do tríplex de Lula, por exemplo, se entre o fato e o recebimento da denúncia se passa mais de seis anos e se as penas não são superiores a oito anos, está prescrita a pena. A pena de corrupção passiva foi de oito anos e quatro meses e a pena de lavagem de dinheiro três anos e nove meses. Parece que o aumento da pena de corrupção passiva para mais de oito anos foi para que ela não prescrevesse.  É cabível recurso extraordinário para o STF. Você acredita na possibilidade do STF revisar a questão a favor de Lula?

GILMAR  SANTIAGO - Eu não tenho esperança nessas instituições que se apresentam como sagradas, mas que no fundo são hegemonizadas por aqueles que sempre dominaram economicamente o Brasil. A  esperança que eu tenho é de que o desgaste dessa farsa vai ser tão grande que vai começar a constranger não mais só o povão que sempre esteve a favor de Lula , mas também setores da classe dominante que vão perceber que é muito melhor que eles se organizem para derrotar Lula nas urnas como já ocorreu em outras eleições . Ele perdeu três eleições antes de virar presidente. Esta seria uma via normal, mais ética do que querer sequestrar o jogador para  ele não participar do jogo. A minha esperança é essa, de que essa aberração jurídica exposta para o mundo inteiro crie um sistema de constrangimento para que eles busquem uma saída e que o STF possa pelo menos rever essa situação toda.

SINTERP/BA - O que você achou do julgamento pelo TRF da 4ª Região?

GILMAR SANTIAGO - Eu não tinha nenhuma esperança de que não ia ser 3x0. Não só eu como a grande maioria da militância do PT acreditava que ia ser assim. Esse aumento da pena já faz parte da estratégia de criminalização de Lula, do PT  e da esquerda, para impedir qualquer possibilidade de retorno   de um projeto político que possa levar o país para um rumo diferente desse traçado pelo golpe à presidente Dilma, com as reformas (Trabalhista, Previdência, etc) e entrega do pré-sal. Todo esse receituário neoliberal é algo que está articulado em cadeia internacional.  Os advogados que estão cuidando do caso de Lula têm cada vez mais surpreendido a todos nós pela qualidade das suas intervenções   e me parece que conseguiram desmoralizar  toda essa farsa montada por Moro e pelo  Ministério Público.

SINTERP/BA - Quais serão as consequências desse julgamento na sociedade brasileira?

GILMAR SANTIAGO - Acho que no fundo estamos vivendo um momento no  Brasil que remonta aos primeiros séculos de escravidão. O pensamento da  elite  dominante é mais ou menos semelhante.  Não  resta outra alternativa senão lutar e resistir a esse processo e eu tenho certeza de que esse julgamento da forma como aconteceu, com esse ingrediente de querer radicalizar ainda mais, acho que isso vai consolidar uma onda de reação popular no país  e não vai ficar assim.  Podemos  ver o mundo inteiro reagindo a isso.  A  repercussão na Europa, nos EUA (no  New York Times).   Acho que estamos vivendo um momento agudo de luta de classes em  que essa elite econômica política vai querer de qualquer  forma neutralizar qualquer possibilidade de Lula, do  PT, da esquerda, saírem vitoriosos.

SINTERP/BA - As  elites não suportam Lula...

GILMAR SANTIAGO - Existe um ódio de classe, um ódio à origem de Lula. O ódio não é  apenas a Lula, o ódio se estende  aos filhos da classe  trabalhadora, do povo.   O  ódio maior é com Lula, porque Lula debocha deles.  Aquele jeitão de Lula com  a autoestima bastante elevada ,  aquilo incomoda muito eles. Se a gente pudesse ouvir o que é que essa elite pensa de Lula, se eles pudessem falar publicamente o que eles pensam de cada um de nós teríamos uma ideia do que isso representa.

SINTERP/BA - Lula não podendo concorrer quem seria o candidato?

GILMAR SANTIAGO - A última vez que eu participei de uma discussão foi no ano passado.  Por volta de outubro teve uma reunião em SP com todos os presidentes de diretórios estaduais e das capitais, com Lula presente. Naquela reunião ficou muito clara a estratégia do PT com relação a  esse processo.   Nós  não iríamos estabelecer plano B ou plano C, porque seria como admitir e legitimar o golpe que eles querem dar. A hora que a gente achar que tem que ter um plano B, uma outra  candidatura para  colocar no lugar de Lula, vamos estar assinando a nossa sentença.  Nós vamos insistir com Lula até o fim, porque o que está em jogo não é uma eleição, é um processo político de luta democrática.  Estamos vivendo um período de ditadura civil em que as instituições estão fazendo a mesma coisa que faziam na época da ditadura militar. Nós não podemos legitimar isso.  Nós vamos com Lula até o fim, entraremos com  recursos,  faremos a inscrição da candidatura.  Existem vários cenários para a conjuntura , temos que ver qual é o desdobramento final.   Pode dar tudo nesse processo, inclusive sermos forçados a escolher outro nome.  Vamos ter que pagar para  ver.

SINTERP/BA - Nenhum dos quadros existentes poderia substituí-lo?

GILMAR SANTIAGO - O PT tem bons quadros em vários estados do Brasil, como Haddad; Jaques Wagner; o governador do Piauí, Wellington Dias. Conseguimos construir no Brasil uma infinidade de quadros, nesta sociedade de quase quatro séculos de escravidão, ditaduras, massacre dos povos indígenas.  Construir lideranças aqui não é nada fácil. Lula representa um patrimônio da esquerda.  Ele foi o que nós conseguimos produzir de melhor na história do Brasil, não por ser a pessoa de Lula, mas pelo que ele representa.  Por isso não tem nenhum substituto para Lula neste momento.  Nenhum nome desses vai conseguir sintetizar o que Lula representa e eu acho  que essa conjuntura vai ser muito difícil, considerando as outras alternativas que a gente tem considerando  do ponto de vista, inclusive, eleitoral.

SINTERP/BA - Você  acha que os votos que seriam de Lula poderiam ser transferidos para outro candidato do PT?

GILMAR SANTIAGO - Em eleição, transferência de votos de uma pessoa para outra sempre foi um problema porque o voto tem um componente pessoal muito grande, a não ser quando o voto é comprado, como uma mercadoria.  A influência de Lula foi muito importante na eleição de Dilma. O fator Lula contribuiu para que várias lideranças no Brasil conseguissem ganhar eleições, como Jaques Wagner.  Eu acho que Lula tem uma influência razoável , mas vai depender também de outros fatores.  Por exemplo, como a direita vai se organizar do ponto de vista eleitoral, pois hoje ela está fragmentada com a candidatura de Bolsonaro.  Não sei se haverá tempo para  eles conseguirem se unificar em torno de uma candidatura, eles têm as divisões deles.   E o  aparato midiático, como a Rede Globo de  Televisão, são hoje questionados pela população.  Não consegue mais manipular da mesma forma que manipulava antes. As pessoas já têm um senso crítico. Eu considero que está em aberto esse processo. Nós vamos ver  meses com acontecimentos semelhantes aos de décadas. Até o final deste ano vamos ver muita coisa ainda.

SINTERP/BA - Como você considera a participação da imprensa no julgamento e a cobertura da mídia sobre Lula ultimamente?

GILMAR SANTIAGO - Voltamos àquela discussão feita pela militância de esquerda no país quando se definia esse processo de divisão da sociedade brasileira em classes. Discutíamos como a classe dominante tinha um aparato para perpetuar o seu processo de dominação política na sociedade.  Os meios de comunicação fazem parte desse aparato ideológico ,  que se soma também ao aparato judicial, da força militar. Historicamente a burguesia governa, mantém a sua hegemonia na sociedade, usando esse aparato. Os meios de comunicação social são fundamentais.  Eles não estão na mão do povo, estão na mão de grupos econômicos, com seus interesses.  Eles cumpriram nesse processo do golpe um processo fundamental   e, infelizmente,  não conseguimos ao longo de tantos anos, freá-los.  A Band estava antecipando o julgamento de Lula, o aumento da pena, antes dele acontecer.   A  imprensa tem um papel preponderante.

SINTERP/BA - As petroleiras internacionais poderão explorar o pré-sal por muitos anos isentas de impostos.   No caso de Lula presidente você acha que ele poderia reverter esse processo?

GILMAR SANTIAGO - Acho que com o retorno de Lula, mesmo numa conjuntura adversa, os programas sociais que foram criados no seu governo,   como o Bolsa  Família, Política de Cotas na Universidade, expansão do ensino público federal, o fortalecimento do SUS, toda essa política entraria novamente no orçamento.  Na economia, o poder de liderança de Lula pode contribuir para o  processo de rearticulação política na América Latina, que sofreu um revés com a perda doo governo do PT, culminando também com a perda dos governos democráticos da Argentina.  Lula com a sua liderança pode suscitar uma rearticulação internacional não só na América Latina, mas também nos blocos econômicos como os BRICS. É por isso que Lula representa essa ameaça de contra-hegemonia que o grande  capital, os grandes conglomerados estão traçando para o mundo  neste momento de rearticulação do capital. As dificuldades serão grandes: veja o que aconteceu com Dilma, que ganhou uma eleição e não conseguiu governar porque eles resistiram.  Lula se elegendo, enfrentaríamos as mesmas dificuldades, mas a liderança popular de Lula é grande.  O apoio popular  às medidas poderiam colocar o país numa nova perspectiva, com muitas dificuldades, mas também com muita esperança.

SINTERP/BA - O que você  tem a dizer sobre a entrega do país que está sendo feita por Temer?

GILMAR SANTIAGO - O projeto de Serra abriu as portas para esse modelo que eles estão implementado no pré-sal.  Vimos o Temer neste último período, o que ele ia fazer com a Amazônia,  teve aquela reação popular. Existem interesses muito poderosos  do capitalismo internacional sobre as riquezas naturais do Brasil.  A questão da soberania é hoje ponto-chave de todo esse processo.  A água vai  ser como falávamos  há dez, vinte anos atrás. A água seria o próximo recurso natural mais cobiçado, já estamos começando a viver esse período.  O governo Temer está querendo, por decreto, mudar toda a lei de saneamento que foi construída durante o governo Lula.  Estão querendo passar por cima dos marcos regulatórios, tudo para poder entregar a água  para a iniciativa privada, que é um grande filão ainda para poder ser explorado.   É aquela política que FHC fez de pegar o BNDES que, ao invés de fortalecer as estatais, financiou a iniciativa privada, dando dinheiro público para os caras comprarem o patrimônio público, como fizeram com a Vale do Rio Doce e como sistema de telefonia brasileiro.

 

Por Alessandra Aquino

 

 


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